O corpo que deixamos de consultarl

Enviado por Elimárcia Aguiar 2026-07-31 11:28:59

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O corpo que deixamos de consultar

Existe uma pergunta que raramente fazemos.

Em que momento deixamos de consultar o corpo para saber quem somos?

Aprendemos muito cedo a perguntar aos outros se estamos certos. Procuramos aprovação, reconhecimento, pertencimento. Aos poucos, a referência sobre aquilo que sentimos desloca-se do organismo para o olhar do outro.

Esse movimento é tão comum que quase parece natural.

Mas talvez seja justamente nele que comece uma das formas mais silenciosas de sofrimento.

Alexander Lowen afirma que o organismo possui uma sabedoria própria. Antes de qualquer elaboração intelectual, o corpo responde ao mundo. A respiração se modifica, a musculatura se organiza, o coração acelera ou repousa. O organismo não interpreta a realidade; ele a vive.

Quando crescemos em ambientes nos quais certas emoções colocam o vínculo em risco, essa confiança no corpo começa a ser substituída por outra forma de orientação.

Já não perguntamos:

"O que estou sentindo?"

Perguntamos:

"O que esperam de mim?"

Pouco a pouco, essa pergunta reorganiza toda a existência.

O ego, cuja função seria favorecer uma relação cada vez mais consciente com a realidade, passa a administrar estratégias de adaptação. Em vez de escutar o organismo, aprende a antecipar expectativas, controlar impulsos e evitar experiências que possam ameaçar o pertencimento.

Essa adaptação é inteligente.

Ela protege.

Mas toda proteção prolongada tem um custo.

O corpo continua registrando aquilo que a consciência já não consegue reconhecer.

A respiração torna-se mais superficial.

A musculatura permanece em estado de alerta.

O olhar perde mobilidade.

As pernas deixam de sustentar plenamente o peso do corpo.

A energia, antes disponível para viver, passa a ser utilizada para manter a defesa.

Lowen chamou esse processo de couraça.

Não se trata apenas de tensão muscular.

A couraça é uma forma de organização da personalidade.

Ela preserva o indivíduo do sofrimento que um dia foi excessivo, mas também limita sua capacidade de experimentar prazer, intimidade e vitalidade.

Talvez por isso muitas pessoas digam:

"Não sei mais o que quero."

Essa frase costuma ser interpretada como uma dúvida psicológica.

Mas talvez ela seja, antes de tudo, uma experiência corporal.

Porque desejar pressupõe sentir.

E sentir exige que o organismo volte a ocupar seu lugar como referência.

Nesse sentido, recuperar o corpo não significa aprender técnicas de relaxamento nem abandonar a razão.

Significa restaurar uma relação de confiança com aquilo que o organismo percebe antes mesmo que consigamos explicar.

Essa talvez seja uma das contribuições mais profundas da Bioenergética.

Ela nos lembra que não pensamos primeiro para depois viver.

Vivemos primeiro.

Pensamos sobre aquilo que vivemos.

O corpo não é um obstáculo para a consciência.

Ele é a condição da própria consciência.

Quando deixamos de consultá-lo, não perdemos apenas contato com nossas emoções.

Perdemos também o critério mais imediato de realidade.

Voltamos então à pergunta inicial.

Em que momento deixamos de consultar o corpo?

Talvez a resposta seja diferente para cada um de nós.

Mas a direção do caminho parece semelhante.

A recuperação da vitalidade começa quando o organismo deixa de ser tratado como um objeto a ser controlado e volta a ser reconhecido como o lugar onde a vida acontece.

Referências

LOWEN, Alexander. O Corpo Traído. São Paulo: Summus.

LOWEN, Alexander. O Corpo em Terapia. São Paulo: Summus.

Desperte sua consciência corporal

Reconecte-se com seu corpo, sua essência e seu prazer de viver através de terapias e vivências transformadoras.