O corpo traído e a culpa de existirl

Enviado por Elimárcia Aguiar 2026-07-31 11:26:52

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O corpo traído e a culpa de existir

Há uma pergunta que escuto com frequência no consultório e entre amigos:

"Por que é tão difícil me posicionar?"

À primeira vista, ela parece uma pergunta sobre coragem. Afinal, posicionar-se exige enfrentar conflitos, correr o risco de desagradar alguém, suportar a possibilidade da rejeição. É natural, então, que procuremos respostas na autoestima, na assertividade ou na necessidade de desenvolver mais confiança.

Mas talvez essa pergunta esconda outra, muito mais fundamental.

Quem é que está tentando se posicionar?

Essa mudança de perspectiva altera completamente a reflexão.

Costumamos imaginar que existe um "eu" inteiro, consciente de si, que simplesmente não consegue expressar aquilo que pensa ou sente. Como se houvesse um problema entre a intenção e a ação. No entanto, a experiência clínica e a Bioenergética sugerem que a questão é mais profunda. Talvez o sofrimento não esteja na dificuldade de se posicionar, mas na forma como aprendemos a existir.

Alexander Lowen dedicou boa parte de sua obra a compreender esse processo. Em O Corpo Traído, descreve como a criança, para preservar o vínculo com aqueles de quem depende, aprende a interromper seus impulsos espontâneos. Não porque eles sejam inadequados em si mesmos, mas porque, em determinado contexto, expressá-los pode significar perder amor, acolhimento ou segurança (LOWEN, 1979).

O organismo aprende muito cedo que algumas experiências colocam o vínculo em risco.

A raiva pode afastar quem cuida.

O choro pode ser ridicularizado.

O desejo pode ser visto como egoísmo.

A alegria pode incomodar.

Pouco a pouco, aquilo que nasce espontaneamente deixa de encontrar espaço para existir. O corpo, entretanto, não aprende por argumentos. Ele aprende por experiência.

Cada repetição deixa um registro. A respiração muda. A musculatura se organiza. A postura se adapta. O organismo inteiro passa a colaborar com uma tarefa silenciosa: preservar o vínculo.

É nesse ponto que a culpa deixa de ser apenas um sentimento.

Ela passa a ser uma forma de organização da vida.

Não se trata da culpa que aparece quando reconhecemos um erro. Essa pode, inclusive, ter uma função ética importante. Refiro-me à culpa que surge sempre que nos aproximamos de nós mesmos. Àquela sensação difusa de que existir com autenticidade pode machucar alguém, decepcionar alguém ou colocar em risco um pertencimento do qual um dia dependemos para sobreviver.

Talvez seja por isso que tantos adultos sintam culpa ao dizer "não", ao descansar, ao escolher um caminho diferente daquele esperado pela família ou simplesmente ao reconhecer um desejo próprio.

A culpa aparece porque o organismo não está respondendo apenas ao presente.

Ele responde a uma história.

E histórias não desaparecem apenas porque crescemos.

Costumo pensar que uma das maiores consequências desse processo é quase invisível. Chega um momento em que deixamos de consultar o corpo. Antes de aceitar um convite, consultamos o que os outros vão pensar. Antes de expressar um limite, consultamos a possibilidade de desagradar. Antes de escolher um caminho, consultamos expectativas, regras, obrigações e papéis. O corpo permanece em silêncio. Não porque tenha deixado de falar. Mas porque deixamos de perguntar.

Essa talvez seja, para mim, uma das imagens mais precisas do que Lowen chamou de corpo traído.

Não um corpo incapaz de sentir.

Mas um corpo que deixou de ser referência.

Essa distinção me parece importante porque muda completamente a direção do trabalho terapêutico. Se o problema fosse apenas a falta de coragem, bastaria aprender técnicas de comunicação ou desenvolver mais autoconfiança.

Mas, se o problema é que o corpo deixou de ser consultado, nenhuma técnica será suficiente enquanto o organismo continuar ocupado em garantir pertencimento.

Lowen compreende o ego como uma função de integração entre a consciência e a experiência corporal. Quando essa integração acontece, o ego não controla o corpo nem luta contra ele. Ao contrário, ajuda a transformar impulsos em ações ajustadas à realidade. Quando essa integração se rompe, porém, o ego passa a organizar a adaptação muito mais do que a expressão da vida (LOWEN, 1977).

Talvez seja exatamente isso que tantas pessoas chamam de dificuldade para se posicionar.

Não é que lhes falte voz.

É que, durante muito tempo, sobreviver significou não escutá-la.

Amadurecer, então, talvez não seja aprender a enfrentar os outros.

Talvez seja reaprender a consultar o corpo antes de consultar o medo.

Essa inversão parece pequena.

Mas pode transformar completamente uma existência.

Porque o organismo não pergunta como agradar.

O organismo pergunta como viver.

E talvez a liberdade comece exatamente no instante em que voltamos a escutar essa pergunta.

Referências

LOWEN, Alexander. O corpo traído. São Paulo: Summus, 1979.

LOWEN, Alexander. O corpo em terapia: a abordagem bioenergética. São Paulo: Summus, 1977.

 

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