Quando o desejo doil

Enviado por Eli Aguiar 2026-05-09 16:06:37

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Quando o desejo dói: uma carta para quem sofre com suas fantasias

Se você chegou até aqui carregando vergonha, medo ou confusão sobre o próprio desejo, quero começar te dizendo uma coisa importante:

você não precisa ser julgado para ser compreendido.

Muitas pessoas chegam até mim com muito receio de nomear certas fantasias, certos impulsos, certos roteiros internos que se repetem no campo da sexualidade.

Algumas me dizem:

"Não sei por que isso me excita."

Outras dizem:

"Eu queria não precisar disso."

Alguns chegam chorando depois de anos em silêncio.

E quase sempre existe uma pergunta escondida por trás de tudo:

“O que há de errado comigo?” 

Quero te oferecer outra pergunta. Talvez mais gentil.Talvez mais verdadeira:

 O que meu corpo e minha história estão tentando me contar através disso?”

Porque, na clínica, aprendi que nem todo desejo repetitivo é apenas sobre sexo.

Às vezes, ele fala de memória. Às vezes, de trauma. Às vezes, de solidão. Às vezes, de desamparo.

Às vezes, de um corpo que aprendeu muito cedo uma única forma de encontrar regulação. Freud já nos ensinava que a sexualidade humana é muito mais complexa do que as narrativas morais costumam admitir. O desejo não nasce apenas da escolha consciente. Ele também se organiza a partir de experiências precoces, fantasias inconscientes, marcas afetivas, cenas internas e formas singulares de buscar satisfação. Mas, hoje, podemos ampliar essa escuta.

Porque também aprendemos, com autores como Bessel van der Kolk, que o corpo guarda experiências que nem sempre foram organizadas em palavras. Nem tudo que retorna é exatamente uma lembrança. Às vezes, o que retorna é um estado corporal. Uma sensação. Uma excitação conhecida. Um circuito interno que, de algum modo, aprendeu a oferecer alívio.

Peter Levine nos ajuda a compreender isso com profundidade quando fala sobre trauma como experiências que deixam energia emocional e fisiológica sem resolução. E aqui quero fazer uma pergunta delicada:

Será que aquilo que você chama de fantasia é apenas uma fonte de excitação… ou também uma forma de autorregulação?

Porque, às vezes, o sofrimento não está no conteúdo da fantasia. Está no fato de que ela se tornou o único caminho conhecido para aliviar tensão, vazio, ansiedade, abandono ou dor. Stanley Keleman, outro autor que me toca profundamente, nos convida a olhar ainda mais fundo. Ele nos lembra que emoção não é apenas algo que sentimos. Emoção é algo que o corpo organiza. Nosso corpo aprende formas. Formas de se defender. Formas de se contrair. Formas de se expandir. Formas de suportar o mundo. E, às vezes, também formas de desejar. Por isso, quando alguém me traz uma fantasia repetitiva, eu nem sempre começo perguntando:

“O que isso significa?”

Muitas vezes, começo perguntando:

“O que acontece com seu corpo quando isso aparece?”

Seu peito abre ou fecha? Sua respiração muda? Seu corpo amolece? Você sente entrega? Tensão? Alívio? Colapso? 

Porque talvez a fantasia não esteja apenas ligada a um objeto. Talvez ela esteja ligada a um estado corporal. Talvez ali exista um corpo que, pela primeira vez, não precisa sustentar ninguém. Não precisa decidir. Não precisa ser forte. Não precisa controlar. E isso muda completamente a escuta clínica. Quero dizer algo com muito cuidado: nem toda fantasia incomum é sofrimento. Nem toda experiência erótica fora do convencional precisa ser patologizada.

Mas quando uma fantasia se torna rígida, compulsiva, solitária, limitante ou dolorosa — quando depois dela vem tristeza, vergonha, vazio ou sensação de aprisionamento — então existe algo ali pedindo cuidado. Não repressão. Não punição. Cuidado.

Porque o objetivo da terapia não é “corrigir” seu desejo. É ampliar sua liberdade diante dele. É compreender o que essa repetição organiza. O que ela protege. O que ela tenta resolver. O que ela substitui. E, principalmente, criar novas possibilidades.

Porque aquilo que um dia foi uma solução psíquica ou corporal importante pode deixar de ser a única saída.

A libido pode se mover.

O desejo pode respirar em novos lugares. O corpo pode aprender outras formas de prazer, presença e vínculo. Se você sofre com suas fantasias, quero que saiba:

isso pode ser olhado com delicadeza, inteligência clínica e humanidade.

Sem julgamento. Sem moralismo. Sem pressa. Com escuta.

Porque, muitas vezes, por trás daquilo que parece apenas desejo, existe uma história inteira pedindo para finalmente ser ouvida.

Faz sentido pra você? 

 


Referências que atravessam essa escuta

Freud, Sigmund

  • Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade

  • Além do Princípio do Prazer

  • Inibição, Sintoma e Angústia

Bessel van der Kolk

  • The Body Keeps the Score

Peter Levine

  • Waking the Tiger

  • In an Unspoken Voice

Stanley Keleman

  • Emotional Anatomy

  • Bodying Forth


 

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